Com um pé na crônica social e outro na ficção, a poesia de Ricardo Caulfield oferece um painel daquele Brasil a partir de uma produção literária que eclodiu simultaneamente às adversidades que marcaram a época. A cada página, camadas de incerteza e a visão nublada do porvir, como partes inerentes aos versos, revelam de maneira seminal a mutação de um poeta diante de um mundo em risco de morte. E o que ele faz? Tece uma ficção do cotidiano enclausurado, reelabora a melancolia em busca da salvação, vê-se pelos olhos do medo e da voracidade. Agarra-se a uma verve, eventualmente cínica. Há cenários dignos de Blade Runner, e também conjunturas ressecadas pela política da morte. Mas não só. O eu-lírico pode ser um pai. Ou um filho. Ou alguém que precisa sair e não sabe se voltará. Também estão presentes referências às interações tecnológicas que atenuaram o drama do isolamento, mas que justificam, em parte, a teoria aqui apresentada de que, mesmo confinados, nunca estivemos tão “distantes de casa”. Esse prisma da alienação aparece algumas vezes, como na poesia “Eu sou as ruas”. Com uma considerável influência de prosa, os poemas moldam uma história, que são muitas, com inícios, meios e fins, vários. Ler os textos na ordem em que são apresentados é uma dica para o leitor, que não encontrará um caminho pavimentado, mas o prazer de um pontilhado poético.