Em 1923, nos primeiros anos da República de Weimar, ocorreu em Berlim, no bairro de Scheunenviertel, um enorme ataque antissemita. No contexto da hiperinflação alemã, o nazismo dava seus primeiros sinais de vida. O médico e escritor alemão judeu Alfred Döblin, logo após esse ataque, participou de uma reunião com sionistas de Berlim, onde foram discutidas medidas em resposta ao crescente antissemitismo na Alemanha. Ele recebeu então a proposta de uma viagem à Palestina. Apesar de recusar a proposta, Döblin se interessou por conhecer o judaísmo tradicional, que ainda se preservava nos enclaves judaicos da Polônia. Em 1924, ele empreendeu então uma viagem à Polônia. Seu livro Reise in Polen [Viagem à Polônia] é um relato minucioso dessa viagem e das comunidades judaicas que ele encontrou por lá. O autor descreve um enorme estranhamento, repudiando muitos dos hábitos tradicionais. Ao mesmo tempo, a experiência o leva a uma reflexão sobre seus antepassados, sobre o judaísmo que praticamente se apagara na sua família por conta da emancipação e sobre a sua condição de cidadão alemão, que estava por acabar. Esta obra estabelece um diálogo entre o conflituoso judeu alemão Alfred Döblin e o seu tempo, permeada pelas propostas de autodeterminação do povo judeu, pelo antissemitismo da República de Weimar e pelos resquícios das sociedades tradicionais judaicas no Leste europeu, que desapareceram com a shoá.