Não pretendo dizer quem fui nem que nome eu tive. De nada adiantará qualquer tentativa de apresentação já que sou imaterial, não tenho mais o fôlego da vida, não existo mais. Morri há um mês, três dias e seis horas e desde então venho inexistindo, no vácuo que há entre aqueles com quem convivi de perto por pouco mais de quarenta e cinco anos. Para ser bem exato, foram dezesseis mil quatrocentos e setenta dias e dezoito horas, em um corpo com vida e numa coexistência terrena em que, na primeira e maior parte, os dias mostravam-se pacíficos e depois foram se complicando por um longo período para, no final, verem-se transformados em dias turbulentos, raivosos e fatais. Contudo, para mim o tempo não mais se conta, porque não sou um ser vivo, sou apenas um sopro energizado e ninguém é capaz de me ver ou de me sentir, embora eu consiga ver a todos com quem convivi quando eu era matéria e tinha um corpo. Posso assistir à continuidade da existência de cada um como se eu ainda estivesse entre eles e, na verdade, pelo menos para mim, eu continuo a estar no meio deles, apesar de não coexistir e eles não serem capazes de me ver ou de perceber minha presença. Confesso que, ao longo da vida que vivi, eu cheguei a ter vontade de ser invisível pelo menos por um dia, para estar entre as pessoas sem que elas se apercebessem. Eu teria podido descobrir segredos inconfessáveis, invadir intimidades segredadas.